A Paixão de Arlequim

Por Neil Gaiman.

(tradução de Michele de Aguiar Vartuli)


É em 14 de fevereiro, naquela hora da manhã em que todas as crianças foram levadas à escola e todos os maridos já foram de carro para o trabalho ou então deixados, encapotados e bafejando vapor, na estação de trem no limite da cidade para o Grande Translado, que eu prego meu coração na porta da casa de Missy. O coração é de um vermelho-escuro quase marrom, da cor de um fígado. Então bato na porta rapidamente, rat-a-tat-tat!, e pego meu bastão, meu cajado, minha lança tão confiável e cheia de fitas, e despareço como vapor se condensando no ar gelado...

Missy abre a porta. Ela parece cansada.

- Minha Colombina – eu suspiro, mas ela não ouve uma palavra. Ela vira a cabeça, observando a rua de uma ponta a outra, mas nada se move. Um caminhão ruge ao longe. Ela volta para a cozinha e eu danço, silencioso como uma brisa, como um rato, como um sonho, para dentro da cozinha, ao lado dela.

Missy pega um saco plástico para sanduíche de uma caixa de papel na gaveta da cozinha e um frasco de spray de limpeza debaixo da pia. Ela rasga duas toalhas de papel do rolo sobre o balcão. Então volta para a porta. Retira o alfinete da madeira pintada – era o alfinete do meu chapéu, que encontrei... onde? Reviro a pergunta na minha mente: na Gasconha talvez? Ou e Twickenham? Ou em Praga?

O rosto na cabeça do alfinete é o de um pálido Pierrô.

Ela retira o alfinete do coração e põe o órgão no saco plástico. Limpa o sangue da porta com um esguicho do spray de limpeza e uma esfregadela da toalha de papel, e coloca o alfinete na lapela, onde o pequeno Augusto de rosto branco fita o mundo gelado com seus olhos cegos prateados e seus solenes lábios de prata. Nápoles. Agora me lembro. Comprei o alfinete em Nápoles, de uma velha com um olho só. Ela fumava um cachimbo de barro. Foi há muito tempo.

Missy deixa os materiais de limpeza na mesa da cozinha, depois enfia os braços nas mangas de seu velho casaco azul, que já foi de sua mãe, fecha os botões, um, dói, três, guarda determinadamente o coração ensacado no bolso e sai para a rua.

Em segredo, silencioso como um rato, eu a sigo, às vezes me esgueirando, às vezes dançando, e ela não me vê, nem por um momento, apenas puxa mais a gola de seu casaco azul e anda pela cidadezinha do Kentuchy, pela velha estrada que passa pelo cemitério.

O vento empurra o meu chapéu e eu lamento, por um instante, a perda do alfinete que o prendia. Mas estou apaixonado e hoje é Dia dos Namorados. Sacrifícios são necessários.

Missy está revendo mentalmente as outras vezes que entrou no cemitério, atravessando os altos portões de ferro: quando seu pai morreu; quando eles foram para lá, crianças, no Dia de Todos os Santos, toda a turma da escola, fazendo festa, dando sussos uns nos outros; e quando um amante secreto morreu num engavetamento de três carros na interestadual, e ela esperou até o fim do funeral, quando o dia terminou, e veio ao entardecer, pouco antes do pôr do sol, para deixar um lírio branco sobre o túmulo recente.

Ah, Missy, devo cantar teu corpo e teu sangue, teus lábios e olhos? Mil corações eu te daria, como teu namorado. Orgulhosamente agito meu bastão no ar e danço, cantando silenciosamente minha glória, enquanto andamos juntos pela Estrada do Cemitério.

Um prédio baixo, cinza, e Missy empurra a porta. Ela diz Olá e Como vai para a garota da recepção, que não responde nada inteligível, recém-saída da escola e fazendo palavras cruzadas em uma revista cheia de palavras cruzadas e nada mais, página após página, e a garota faria ligações particulares do local de trabalho se tivesse para quem ligar, mas não tem, e, tão evidente como um elefante, vejo que nunca vai ter. Seu rosto é um monte de pústulas purulentas e cicatrizes de acne, e ela acha que isso importa, e não fala com ninguém. Cejo sua vida estender-se diante de mim: ela morrerá, solteira e imaculada, de câncer de mama, daqui a quinze anos, e será depositada sob uma pedra com seu nome na campina perto da Estrada do Cemitério, e as primeiras mãos que tocarão seus seios serão as do médico-legista, quando ele extrair a fétida massa em forma de couve-flor e murmurar: “Meu Deus, olha só o tamanho disto, por que ela não falou com ninguém?”, deixando de perceber o óbvio.

Suavemente, beijo sua bochecha escalavrada e sussurro que ela é linda. Então bato-lhe uma, duas, três vezes na cabeça com meu bastão e passo uma fita ao seu redor.

Ela se espreguiça e sorri. Talvez hoje à noite se embebede, dance e ofereça sua virgindade no altar de Himeneu, talvez conheça um jovem que se importe mais com seus seios do que com seu rosto e que, um dia, apertando, sugando e acariciando aqueles seis, dirá: “Amor, já foi consultar um médico a respeito desse caroço?”, e até lá sua acne terá desaparecido faz tempo sob a ação das carícias, beijos e toques...

Mas agora perdi Missy de vista, e corro e rodopio por um corredor de carpete marrom, até que vejo aquele casaco azul empurrando uma porta na outra ponta, e a sigo para uma sala sem aquecimento, com azulejos verdes de banheiro.

O fedor no ar é inacreditável, pesado, ácido, nauseabundo. O homem gordo de jaleco usa luvas descartáveis de látex e uma grossa camada de mentol no lábio superior e ao redor das narinas. Um cadáver está sobre a mesa diante dele. É de um negro velho e magro com calos na ponta dos dedos. Ele tem um bigode fino. O gordo ainda não notou Missy. Ele fez uma incisão e agora está puxando a pele, que faz um som de ventosa úmida, e como é escuro o marrom do lado de fora, e como é rosado e bonito o rosa do lado de dentro.

Um rádio portátil toca música clássica muito alto. Missy desliga o aparelho e diz: - Olá, Vernon.

O gordo diz: - Olá, Missy. Veio pedir seu emprego de volta?

Esse é o Doutor, concluo, porque é gordo, rotundo e magnificamente bem alimentado demais para ser Pierrô, descarado demais para ser Pantaleão. Seu rosto se enruga de prazer ao ver Missy e ela sorri ao vê-lo, e eu tenho ciúme: sinto uma pontada de dor atravessar meu coração (atualmente num saco plástico no bolso do casaco de Missy), mais aguda do que aquela que senti quando o espetei com meu alfinete e o preguei na sua porta.

E por falar no meu coração, ela o tirou do bolso e o está agitando diante do médico-legista Vernon. – Sabe o que é isso? – ela pergunta.

- Um coração – ele diz. – Rins não tem ventrículos, e o cérebro é maior e mais gosmento. Onde conseguiu?

- Eu esperava que você me dissesse – ela responde. – Ele não saiu daqui? Esta é a sua idéia de cartão de Dia dos Namorados, Vernon? Um coraçãoa humano espetado na minha porta?

Ele balança a cabeça. – Não saiu daqui – diz. – Quer que eu chame a polícia?

Ela diz que não com a cabeça. – Do jeito que sou azarada – responde – vão chegar à conclusão que sou uma assassina e me mandarão pra cadeira elétrica.

O doutor abre o saco e cutuca o coração com os dedos curtos e enluvados. – Adulto, em boa forma, cuidava bem do coração – diz. –extraído por um especialista.

Sorrio orgulhosamente disso e me curvo para falar com o negro morto sobre a mesa, com seu peito todo aberto e seus dedos cheios de calos das cordas do baixo. – Vá embora, Arlequim – ele resmunga baixinho, para não ofender Missy e seu médico. – Não arrume confusão por aqui.

- Quieto. Arrumo confusão onde eu quiser – eu lhe digo. É minha função. – Mas por um momento sinto um vazio em mim: estou melancólico, quase pierrôtico, o que não é nada bom para um arlequim.

Ah, Missy, vi você ontem na rua e a segui até o Alimentos Superbaratos e Outros do Al, o entusiasmo e a alegria crescendo em mim. Em você, reconheci alguém que poderia me arrebatar, me afastar de mim mesmo. Em você reconheci meu amor, a minha Colombina.

Não dormi na noite passada; em vez disso, virei a cidade de ponta-cabeça, confundindo os incautos. Fiz três banqueiros sóbrios passarem ridículo com drag queens do Madame Zora Bar e Espetáculos. Invadi quartos de adormecidos, invisível e insuspeitado, escondendo provas de misteriosos e exóticos encontros amorosos dentro de bolsos, debaixo de travesseiros e em dobras, apenas podendo imaginar a diversão deflagrada no dia seguinte, quando extravagantes calcinhas eróticas sujas fossem encontradas mal escondidas sob almofadas de sofás e em bolsos internos de ternos respeitáveis. Mas tudo isso diz sem entusiasmo, e o único rosto que eu consegui ver era o de Missy.

Ah, o Arlequim apaixonado é uma criatura patética.

Eu me pergunto o que ela fará com meu presente. Algumas garotas rejeitam o meu coração; outras o tocam, o beijam, o acariciam, o punem com todo tipo de carinho antes de devolvê-lo à minha guarda. Outras nem mesmo o vêem.

Missy pega o coração de volta, devolve-o ao saco plástico, fecha o lacre.

- Devo incinerá-lo? – pergunta.

- Pode ser. Você sabe onde fica o incinerador – diz o Doutor, voltando para o músico morto sobre a mesa. – Falei sério sobre o seu emprego. Preciso de uma boa assistente.

Imagino o meu coração subindo para o céu como cinzas e fumaça, cobrindo o mundo. Não sei o que acho disso, mas, cerrando os dentes, ela balança a cabeça e se despede de Vernon, o médico-legista. Ela enfiou meu coração no bolso e está saindo do prédio, subindo a Estrada do Cemitério e voltando para a cidade.

Pirueto à frente dela. Decido que interagir seria bom e, procedendo de acordo, me disfarço de velha encarquilhada a caminho do mercado, cobrindo os losangos vermelhos da minha fantasia com uma capa esfarrapada que esconde meu rosto mascarado sob um volumoso capuz e, no alto da Estrada do Cemitério, apareço e impeço-lhe a passagem.

Maravilhoso, maravilhoso e maravilhoso como sou, digo a ela, com a voz da mais velha das mulheres: - Dê uma moeda de cobre a uma velha encarquilhada, querida, e eu adivinharei seu futuro e farei seus olhos vibrarem de alegria. – Missy para, abre a bolsa e tira uma nota de um dólar.

- Tome – diz.

E me passa pela cabeça lhe contar sobre o homem misterioso que conhecerá, todo vestido de vermelho e amarelo, com sua máscara, que irá encantá-la e amá-la e jamais, jamais a deixará (porque não é boa idéia revelar à sua Colombina toda a verdade), mas em vez disso me ouço dizendo, com voz rouca: - Já ouviu falar de Arlequim?

Missy parece pensativa. Em seguida, balança a cabeça. – Sim – diz. – Personagem da commedia dell’arte. Fantasia coberta de pequenos losangos. Usava máscara. Acho que era uma espécie de palhaço, não?

Balanço a cabeça sob o capuz. – Palhaço, não. Ele era...

E me vejo prestes a contar-lhe a verdade, por isso engulo as palavras e finjo que estou tendo o tipo de ataque de tosse ao qual mulheres idosas são particularmente suscetíveis. Pergunto-me se isso poderia ser o poder do amor. Não me lembro de ter tido problemas assim com outras mulheres que pensei ter amado, outras Colombinas que encontrei há muitos séculos.

Olho, através de olhos semicerrados de velha, para Missy; ela tem 20 e poucos anos e lábios como os de uma sereia, cheios, bem definidos e firmes, olhos cinza e uma certa intensidade no olhar.

- A senhora está bem? – ela pergunta.

Tusso, sufoco e tusso um pouco mais e gaguejo: - Estou ótima, meu bem, ótima, muito obrigada.

- Então – ela disse -, pensei que a senhora fosse adivinhar o meu futuro.

- O Arlequim te deu seu coração – eu me ouço dizer. – Você precisa descobrir as batidas dele sozinha.

Ela me olha intrigada. Não posso me transformar ou desaparecer enquanto ela estiver me olhando, e me sinto paralisado, furioso com minha língua zombeteira por ter me traído. – Olhe – digo a ela –, um coelhinho! – Ela se vira, seguindo a direção que meu dedo aponta, e quando tira os olhos de mim, desapareço, pop!, como um coelho entrando na toca, e quando ela olha de novo não há sinal da velha vidente, vale dizer, de mim.

Missy segue em frente e eu rodopio atrás dela, mas não com a mesma energia que tive de manhã.

Meio-dia , e Missy foi para o Alimentos Superbaratos e Outros do Al, onde compra um pedacinho de queijo, uma caixinha de suco natural de laranja, dois abacates, e depois vai para o Banco Country One, onde saca 279 dólares e 22 centavos, todo o dinheiro de sua poupança, e eu me esgueiro atrás dela doce como açúcar, quieto como um túmulo.

- Bom dia, Missy – diz o proprietário do Café Saleiro, quando Missy entra. Ele tem uma barba aparada, não muito grisalha, e meu coração falharia se não estivesse no saco plástico no bolso de Missy, porque esse homem obviamente a deseja, e minha autoconfiança, que é lendária, diminui e fenece. Eu sou Arlequim, digo a mim mesmo, com minha roupa de losangos, e o mundo é minha arlequinada. Sou Arlequim, que voltou dos mortos para troçar dos vivos. Sou Arlequim, com minha máscara, com meu bastão. Assobio baixinho e minha autoconfiança cresce, rija e ereta, uma vez mais.

- Ei, Harve – diz Missy. – Me dá uma porção de batata frita e um tubo de ketchup.

- Só isso? – ele pergunta.

- Sim – ela diz. – Só isso está ótimo. E um copo d’água.

Digo a mim mesmo que o tal de Harve é Pantaleão, o tolo comerciante que devo ludibriar, estarrecer, aparvalhar e confundir. Talvez haja um rolo de gomos de lingüiça na cozinha. Decido causar um delicioso desalinho no mundo e me deitar com a deliciosa Missy antes da meia-noite: meu presente de Dia dos Namorados para mim mesmo. Imagino-me beijando seus lábios.

Há um punhado de outros comensais. Eu me divirto trocando seus pratos enquanto não estão olhando, mas não consigo achar graça nisso. A garçonete é magra e seu cabelo pende em tristes cachos ao redor do rosto. Ela ignora Missy, que obviamente considera domínio exclusivo de Harve.

Missy senta-se à mesa e tira o saco plástico do bolso. Ela o coloca sobre a mesa, diante de si.

Harve-o-pantaleão anda até a mesa de Missy e serve um copo d’água, um prato de batatas fritas bem coradas e um tudo de Ketchup Heinz 57 Variedades. – E uma faca serrilhada – ela lhe pede.

Passo a perna nele quando volta para a cozinha. Ele pragueja e eu me sinto melhor, mais como o meu de antes, e belisco a bunda da garçonete quando ela passa pela mesa de um senhor que lê o USA Today enquanto brinca com sua salada. Ela lhe lança um olhar cheio de ódio. Eu rio e então sinto algo bem estranho. De repente, me sento no chão.

- O que é isso, queria? – a garçonete pergunta a Missy.

- Comida saudável, Charlene – diz Missy. – Rica em ferro. – Espio sobre o tampo da mesa. Ela está cortando pequenas fatias de carne cor de fígado no prato, encharcando-as com o molho de tomate e espetando várias batatas fritas no garfo. Então ela mastiga.

Vejo meu coração desaparecer em sua boca de botão. Minha brincadeira de Dia dos Namorados, por algum motivo, parece menos divertida.

- Você está anêmica? – pergunta a garçonete, passando por ela de novo com um bule de café fumegante.

- Não mais – diz Missy, enfiando outro pedaço pequeno da carne rija e crua na boca e mastigando-o com força antes de engolir.

E depois que termina de comer meu coração, Missy olha para baixo e me vê jogado no chão. Ela assente com a cabeça – Lá fora – diz. – Agora. – Então se levanta e deixa 10 dólares ao lado do prato.

Ela está sentada num banco na calçada, esperando por mim;. Faz frio e a rua está quase deserta. Eu me sento ao lado dela. Eu daria cambalhotas, mas me sinto muito tolo sabendo que tem alguém olhando.

- Você comeu meu coração – eu digo. Ouço a petulância em minha voz, e isso me irrita.

- Sim – ela diz. – É por isso que consigo ver você?

Eu concordo com a cabeça.

- Tire essa máscara – ela diz. – Parece um bobo.

Eu tiro a máscara. Ela parece levemente decepcionada. – Não melhorou muito – observa. – Agora me dê o chapéu. E o bastão.

Eu faço que não. Missy estica a mão e tira o chapéu da minha cabeça e o bastão da minha mão. Brinca com o chapéu, seus longos dedos alisando-o e dobrando-o. Suas unhas estão pintadas com esmalte escarlate. Então ela se espreguiça e sorri expansivamente. A poesia se foi da minha alma e o vento frio de fevereiro me fez tremer.

- Está frio – digo a ela.

- Não – ela diz -, está perfeito, magnífico, maravilhoso e mágico. É o Dia dos Namorados, não é? Quem poderia sentir frio no Dia dos Namorados? Que época do ano linda e fabulosa.

Olho para baixo. Os losangos estão sumindo do meu traje, que está ficando branco como um fantasma, branco como um Pierrô.

- O que eu faço agora? – pergunto a ela.

- Não sei – diz Missy. – Pode desaparecer, talvez. Ou achar outro papel... um amante enjeitado, quem sabe, sofrendo e lamuriando-se à luz pálida do luar. Só precisa de uma Colombina.

- Você – digo a ela. – Você é a minha Colombina.

- Não sou mais – ela me diz. – Essa é a alegria de uma arlequinada, afinal, não é? Nós trocamos as fantasias. Trocamos os papéis.

Ela abre um sorriso para mim agora. Então põe o meu chapéu, o meu chapéu de arlequim, em sua cabeça. Ela me dá um tapinha no queixo.

- E você? – pergunto.

Ela joga o bastão no ar: ele gira e rodopia num grande arco, fitas vermelhas e amarelas se retorcendo em seu rastro, e então pousa com suavidade, quase silenciosamente, de novo em sua mão. Ela apóia a ponta na calçada e se levanta do banco num movimento elegante.

- Tenho coisas a fazer – ela me diz. – Ingressos para conferir. Pessoas para sonhar. – Seu casaco azul, que já foi de sua mãe, não é mais azul, mas amarelo-canário com losangos vermelhos.

E então ela se curva e me beija nos lábios com força.

-

Em algum lugar, o escapamento de um carro estourou. Eu me virei, assustado, e quando olhei de novo estava sozinho na rua. Fiquei sentado ali, sozinho, por algum tempo.

Charlene abriu a porta do Café Saleiro. – Ei, Pete. Terminou aí?

- Terminei?

- Sim. Vamos. Harve disse que sua pausa pro cigarro acabou. E você vai congelar. Volta pra cozinha.

Olhei para ela. Ela ajeitou seus belos cachos e, por um momento, sorriu para mim. Fiquei de pé, ajeitei minha roupa branca, o uniforme de ajudante de cozinha, e a segui para dentro.

“Hoje é Dia dos Namorados”, pensei. “Diga a ela o que sente. Diga o que pensa.”

Mas não falei nada. Não ousava. Simplesmente a segui para dentro, uma criatura de desejo mudo.

De volta à cozinha, uma pilha de pratos me esperava: comecei a raspar os restos de comida no lixo orgânico. Havia um pedaço de carne escura num dos pratos, ao lado de um resto de batatas fritas cobertas de ketchup. Parecia quase cru, mas eu o mergulhei no ketchup já meio duro e, quando Harve não estava olhando, tirei-o do prato e o engoli. Tinha gosto metálico e era cartilaginoso, mas eu o comi assim mesmo, e não saberia dizer por quê.

Um pingo de ketchup vermelho caiu do prato na manga do meu uniforme branco, formando um losango perfeito.

- Ei, Charlene – gritei para o outro lado da cozinha. – Feliz Dia dos Namorados. – E então comecei a assobiar.

4 comentários:

@ju_liana_lopes disse...

Esse post é muito grande e eu não estou com muito tempo de ler, mas prometo que nas férias eu leio XD

Tüppÿ disse...

HAUHAUHAUHAUHAUHAUH XD

Eu pressenti que ninguém ia ler isso, quando postei. Mas nem é tão grande assim, no livro eram sete páginas aw*

Arthur disse...

Eu li tudo! Tô aqui tendo espasmos de euforia por causa da absurda fodeza do Neil Gaiman!
Sério, é até meio injusto com o resto da humanidade que ele seja tão esplendidamente talentoso ;-;

Mr. Lollipop disse...

Olá, Tüppÿ! Sou o tradutor do texto, muito, MUITO obrigado por ter dado crédito à minha tradução!

Quem sou eu

Quem sou eu
Como a imagem acima mostra tão claramente, eu obviamente sou Shakespeare.